A primeira entrevista com um homem morto
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A primeira entrevista com um homem morto

696w, 300w, 768w, 1024w, 617w” alt=”” width=”696″ height=”474″ />Visitar um cemitério “foi o mais perto que consegui chegar da morte”, diz Graham.Créditos: Robert Croma.

Nome: Graham
Condição: Síndrome de Cotard (ou síndrome do cadáver ambulante)

“Quando eu estava no hospital, continuei dizendo-lhes que os comprimidos não me fariam bem, porque o meu cérebro estava morto. Perdi o olfato e o paladar. Não precisava comer, nem falar, nem fazer nada. Acabei passando um tempo no cemitério, porque foi o mais perto que consegui chegar da morte.”

Há nove anos, Graham acordou e descobriu que estava morto.

Ele estava sob o controle da síndrome de Cotard. Pessoas com essa rara condição acreditam que eles, ou partes de seu corpo, não existem mais.

Para Graham, era seu cérebro que estava morto, e ele acreditava que tinha se matado. Sofrendo de depressão severa, ele tentou cometer suicídio levando um aparelho elétrico com ele para o banho.

Oito meses depois, ele disse a seu médico que seu cérebro tinha morrido, ou estava, na melhor das hipóteses, desparecido. “É realmente difícil de explicar”, diz ele. “Senti que meu cérebro não existia mais. Continuei dizendo aos médicos que os comprimidos não me fariam bem, porque eu não tinha um cérebro. Fritei-o no banho.

Os médicos acharam que tentar racionalizar com Graham era impossível. Mesmo enquanto ele estava sentado conversando, respirando – vivendo – ele não podia aceitar que seu cérebro estava vivo. “Fiquei irritado. Não sabia como falar ou fazer qualquer coisa sem cérebro, mas, na medida em que eu estava preocupado, eu não tinha um”.

Perplexo, eles eventualmente o colocavam em contato com os neurologistas Adam Zeman na Universidade de Exeter, Reino Unido, e Steven Laureys na Universidade de Liège, na Bélgica.

“É a primeira e única vez que a minha secretária me disse: ‘É realmente importante que você venha falar com esse paciente, porque ele está me dizendo que ele está morto’”, diz Laureys.

Em estado de limbo

“Ele era um paciente realmente incomum”, diz Zeman. A crença de Graham “era uma metáfora de como ele se sentia sobre o mundo – suas experiências já não o moviam. Ele sentiu que estava em um estado de limbo entre a vida e a morte”.

Ninguém sabe o quão comum pode ser a síndrome de Cotard. Um estudo publicado em 1995 com 349 pacientes psiquiátricos em Hong Kong encontrou dois com sintomas parecidos com Cotard (General Hospital Psychiatry). Mas com tratamentos bem-sucedidos e rápidos para estados mentais como a depressão – a circunstância de que Cotard parece surgir com maior frequência – prontamente disponíveis, os pesquisadores suspeitam que a síndrome é excepcionalmente rara hoje. A maioria dos trabalhos acadêmicos sobre a síndrome é limitada a estudos de casos únicos, como o de Graham.

Algumas pessoas com Cotard morreram de fome, acreditando que não precisavam mais comer. Outros tentaram se livrar de seu corpo usando ácido, algo que eles viram como sendo a única alternativa para se libertar de ser um “morto-vivo”.

O irmão e os cuidadores de Graham se certificavam se ele comia, e cuidavam dele. Mas era uma existência infeliz. “Eu não queria enfrentar as pessoas. Não tinha sentido”, diz ele. “Não senti prazer em nada. Eu costumava idolatrar o meu carro, mas não me aproximei. Todas as coisas que me interessavam foram embora”.

Até os cigarros que ele costumava saborear já não lhe davam mais prazer. “Perdi meu olfato e meu senso de paladar. Não fazia sentido comer, porque eu estava morto. Foi um desperdício de tempo falar como eu nunca tinha nada a declarar. Eu nem sequer tinha pensamentos. Nada tinha sentido.”

Metabolismo lento

Uma olhada para dentro do cérebro de Graham forneceu alguma explicação para Zeman e Laureys. Usaram Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET Scan) para monitorar o metabolismo em seu cérebro. Foi o primeiro PET Scan tirado de uma pessoa com Cotard (Cortex). O que encontraram foi chocante: a atividade metabólica em grandes áreas das regiões do cérebro frontal e parietal era tão baixa que se assemelhava a de alguém em estado vegetativo.

Algumas dessas áreas formam parte do que é conhecido como a “rede neural em modo padrão” – um sistema complexo de atividades que se acredita ser vital para a consciência do núcleo e a nossa teoria da mente. Essa rede é responsável por nossa capacidade de lembrar o passado, pensar sobre nós mesmos, criar um senso de si mesmo e perceber que somos o agente responsável por uma ação.

“Estive analisando PET Scans por 15 anos e nunca vi alguém que estava de pé, interagindo com as pessoas, com um resultado tão anormal”, diz Laureys. “A função do cérebro de Graham se assemelha a de alguém durante a anestesia ou o sono. Ver esse padrão em alguém que está acordado é exclusivo para o meu conhecimento”.

Os scans de Graham poderiam ter sido afetados pelos antidepressivos que tomava e, como Zeman aponta, é imprudente extrair demasiadas conclusões dos scans de uma única pessoa. Mas, diz Zeman, “parece plausível que o metabolismo reduzido estava trazendo essa experiência alterada do mundo e afetando sua capacidade de raciocinar sobre ele”.

“Há muitas coisas que não sabemos sobre como definir a consciência”, diz Laureys. No mínimo, casos incomuns, como o de Graham, contribuem para a compreensão de como o cérebro cria a percepção de si mesmo e como ele pode ser prejudicado.

Para Graham, os scans cerebrais não significam quase nada. “Me senti para baixo”, diz ele. Nessa altura, seus dentes estavam pretos, porque não se sentia mais incomodado para escová-los, compondo sua crença de que estava morto.

Graham diz que realmente não teve qualquer pensamento sobre seu futuro durante esse tempo. “Eu não tinha outra opção a não ser aceitar o fato de que eu não tinha como morrer. Foi um pesadelo.”

Cemitério assombroso

Esse sentimento o levou, ocasionalmente, a visitar o cemitério local. “Eu senti que poderia ficar lá. Foi o mais perto que consegui chegar da morte. A polícia viria me buscar e me levar para casa”.

Houve algumas consequências que não foram explicadas do transtorno. Graham diz que costumava ter “lindas pernas peludas”. Mas depois de ter Cotard, todos os cabelos caíram. “Eu parecia uma galinha depenada! A salvação foi raspá-los, suponho…”.

É bom ouvi-lo brincar. Ao longo do tempo, e com muita psicoterapia e tratamento com fármacos, Graham melhorou de forma gradual e não está mais no aperto da desordem. Ele agora é capaz de viver de forma independente. “Seu Cotard desapareceu e sua capacidade de ter prazer com a vida voltou”, diz Zeman.

“Eu não digo que realmente voltei ao normal, mas agora me sinto muito melhor, saio e faço tarefas cotidianas”, diz Graham. “Não sinto mais esse cérebro morto. Às vezes, as coisas ficam um pouco estranhas”. E a experiência mudou seu sentimento sobre a morte? “Não tenho medo da morte”, diz ele. “Mas isso não tem a ver com o que aconteceu – todos nós vamos morrer algum dia. Tenho sorte de estar vivo agora”.

Por Helen Thomson
Publicado na New Scientist

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